Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Prelúdio
baden e vinícius
Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar
Em sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus braços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
posted by FELIPE LEAL 2:32 AM
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Era sábado e estava nublado
Dois dias depois ele ligou. Passou aquelas intermináveis 48 horas na dúvida, ligar ou não ligar. Os amigos acharam melhor não, ia demostrar algum sinal de fraqueza se tirasse o telefone do gancho e falasse o que viesse à cabeça. Para se distrair, foi andar na cidade, mas o exercício não ajudou muito. O vinil que viu no sebo lembrava exatamente o tipo de jazz sujo e trincado que ela gostava. Só a conhecia pelo pouco que tinham conversado, mas se encantou imediatamente. Ela gostava de Miles Davis, usava vestido de bolinha, pintava os olhos com sombra preta e sorria de um jeito que o deixava destruidamente embasbacado. Era sábado e estava nublado, daqueles frios que dão vontade de ficar abraçado ou de assistir algum filme. Não conseguia controlar o nervosismo.
- Alô.
- Alô. Quem tá falando?
- Roberto...
- Roberto?
- É
- Roberto que eu vi na Praça da República?
- É!
- Ah, oi.
- Tudo bem?
- Tudo, tudo.
(...)
Marcaram de ir ao centro da cidade, na banca onde ele tinha visto o vinil do Miles. Depois de quarenta minutos se arrumando, achou que estava bem apresentado para a menina da saia voadora. Ao descer as escadas do prédio, lembrou que tinha esquecido o perfume. Subiu novamente os cinco lances de escadaria e se benzeu com aquele frasco prateado. Tomou dois ônibus até a parada mais próxima do sebo. Ela ainda não tinha chegado, mas ainda era cedo, não tinha problemas. Depois de dedilhar todos os encartes da loja improvisada, deu de cara com o trompetista. A capa do Kind Of Blue ainda estava intacta, realmente um achado. O preço já não era tão interessante assim, mas a situação pedia uma medida inteligente. Comprou e sentou, vinil embaixo do braço, em um banco de madeira em frente ao local combinado com ela.
Passados 20 minutos, ela desceu do ônibus. Dessa vez dentro de outro vestido, vermelho, melhor ainda que o primeiro e com aquelas sapatilhas que mais pareciam ter saído da França. Deu-lhe dois beijinhos no rosto e sentou ao seu lado no banco de madeira. Perguntou do encarte e ao ver que se tratava de Miles, demonstrou uma felicidade instantânea, linda. "É seu", revelou. "Meu?", ela perguntou, assustada. "É, comprei para você". Ela sorriu sem jeito, mas ele não conseguiu interpretar o que aqueles olhos verdes pensavam. Conversaram por quase duas horas sobre música, cinema e falaram das banalidades mais deliciosas que ele jamais tinha imaginado compartilhar. Até que chegou a hora da despedida. As despedidas são as coisas mais complicadas e decisivas de todas, ele pensava. Olhou-a, abraçaram-se, ganhou um beijo na testa daquele ser sorridente e com um espírito leve. Pegaram ônibus diferentes, ele para a Zona Norte e ela para a Sul.
Tentou ligar para ela nos dois dias seguintes, mas não obteve resposta. Amargurado, achou melhor não insistir. Nunca mais se falaram. Ele nunca entendeu o que tinha acontecido. O vinil do Miles Davis está jogado, até hoje, em algum canto da casa dela, perto de outros medalhões empoeirados.
posted by FELIPE LEAL 6:22 PM
Quinta-feira, Outubro 11, 2007
Se não for de revólver, eu quebro na porrada. E finalizo o rap detonando de granada
Anteontem lembrei de quando, em 2003, fui assistir Cidade de Deus no popular Teatro do Parque, coração do Recife, ingressos a R$ 1. A fila dava voltas no imenso quarteirão da Rua do Hospício. Era ocasião do relançamento do filme, depois da indicação para o Oscar daquele ano. Aquela, que seria a quarta revisão da obra de Fernando Meireles, acabou sendo a mais interessante de todas. A cada cena que se sucedia na tela, o público gritava, ou melhor, urrava. Quando Dadinho dizia que seu nome, caralho, era Zé Pequeno, o cinema quase veio abaixo. Nas cenas da galinha a platéia exclamava. Uns torciam para ela fugir e outros queria vê-la numa panela. O mesmo para as cenas de teor sexual. O falatório aumentava e os presentes deliravam com Buscapé, Zé Pequeno, Mané Galinha etc.
Falei anteontem no começo da postagem, porque fui rever pela terceira vez o tão polêmico Tropa de Elite, dessa vez no cinema, com um som digno da sonoplastia de tiros, tapas na cara e outros bichos. Duas cenas a mais e só. Nada além disso difere das cópias distribuídas em qualquer ponto de qualquer cidade brasileira com mais de cinco mil habitantes. Era pré-estréia, e um tapete simulando o chão de uma favela recepcionava os convidados. No último volume, o Rap das Armas, dos Mcs Cidinho e Doca, cantava o Morro do Dendê. Aquela música que apresenta o filme, quando a viatura do Bope sobe o Babilônia. "Prá subir aqui no morro até a Bope treme. Não tem mole pro exército, a civil e a PM".
Pois é com "Dois irmãozinho de 762/ De AK-47 e na outra mão a metralha", que José Padilha escolhe começar a sua verborragia contra a corrupção policial e os maconheiros da Puc. O mérito dos voice-overs (offs, falas que o Capitão Nascimento repete como narrador onisciente) já foi discutido em todas as praças e eu fico no time dos que os abominam. Já queriam minha cabeça na época de Dogville, que considero um dos filmes mais fascistas que já assisti. É um insulto ao espectador, didatismo mascarado de trama redentora.
Acredito que, ao contrário de Lars Von-Trier, Padilha não tinha tanta pretensão. Que bom. Ele mostra uma história entrecortada, câmera trêmula como nos filmes de Paul Greengrass (um dos melhores dos últimos anos), montagem a lá Cidade de Deus, entrecruzamentos de narrativa com intertítulos como Pulp Fiction e a estética da periferia em funks, três-oitão, glock-na-mão e tantos "caralhos" que me lembraram os mais de 100 "fucks" de Jackie Brown.
Falou-se muito no conteúdo ético do filme, que Padilha seria um diretor fascista, determinista, didático, sonso. Concordo em partes. Realmente ele atira na cara da platéia com uma espingarda calibre 12. Atira na cara dos maconheiros da Puc, da classe-média que financia o tráfico do alto da cobertura da Zona Sul, mas também atira na polícia e na periferia. E principalmente nela. Padilha, em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, disse que não quis supervalorizar o Bope, mas simplesmente retratar um relato na tela e que aquilo mostrado não necessariamente representaria o ponto de vista dele. Acho estranha essa argumentação e não fui o único que achou que a as tropas especiais da PM foram elevadas à condição de salvadoras.
Nem precisa ir muito longe. Cap. Nascimento virou herói nacional. Se a atuação de Wagner Moura surpreende, o personagem (apoiado nas muletas dos offs contínuos e massacrantes) é, definitivamente, fascista. E Padilha parece gostar disso. Ou então, ingenuamente, não percebeu. As cenas de torturas, em primeiro plano, todas, com "tapas na cara", "maconheiro viado", "posso revistar seu quarto, filho", e um garoto prestes a ser impalado pelos caveira são só algumas. E o público, naquela pré-estréia recebida pelo Rap das Almas, também urrava quando Cap. Nascimento e cia "esculachavam" os filhos da puta. Igualzinho à sessão de Cidade de Deus. A diferença é que, na primeira, quem estava na sala era quem pagava r$ 1 para o filme. Na pré, anteontem, eram jornalistas, celebridades e outras crias do colunismo social.
Rap das Armas
http://youtube.com/watch?v=er5PTJtHRpM&mode=related&search=
posted by FELIPE LEAL 3:01 PM
Quarta-feira, Outubro 03, 2007
O amor é uma vela laranja
Era sexta-feira à noite. Ele vestiu a sua melhor camisa, aquela azul listrada que ela adorava, e chegou mais cedo do trabalho. Entrou em casa na ponta do pé, mas ela ainda não havia chegado. Melhor. Arrumou a casa, varreu o chão e organizou a mesa da sala, aquela que só era usada para ocasiões especiais. Tirou as revistas de cima do vidro e colocou uma toalha rendada daquelas que ela comprava quando ia para o interior ver a família. Dentro de um embrulho que trouxe, várias velas aromatizadas. Ela adora as velas aromatizadas, sempre que ia ao shopping procurava as mais coloridas e com os melhores aromas.
Colocou um avental para não sujar a camisa e foi para a frente do fogão de quatro bocas que tinha ganho do Márcio na ocasião do casamento. Grande Márcio, o único defeito dele era torcer para o Botafogo. Dentro de uma das panelas de inox, um pedaço suculento de filé, imerso em um molho maravilhoso. Na outra panela, crepitante, um molho de mostarda igual ao do livro de receitas borbulhava, ansioso para encontrar a carne. Na terceira boca do fogão, macarrão. Eu nem gostava tanto assim de macarrão, mas ela era apaixonada por massa, por ela a gente comia massa todo dia. Vai ver é coisa da ascendência italiana. Um pouquinho de azeite, pimenta e um punhado de queijo ralado dentro de um pote de prata. Arrumou a comida na mesa e acendeu três velas laranjas. Eram tão laranjas que dava vontade de comê-las.
O perfume no ambiente era afrodisíaco. Ela vai ficar tão impressionada que vai me atacar, com certeza. Faz quase três dias que não nos vemos direito, ela sempre preocupada com as coisas da agência, andava trabalhando em turno dobrado. Dava até pena. O sexo já não era a mesma coisa de quando a gente namorava. Antes era uma loucura, todos os dias, em qualquer lugar, ambiente público ou não. Eu até ficava meio incomodado com aquilo, mas ela sabia me excitar como ninguém. Adorava quando, depois do sexo, ela encostava a cabeça no meu peito e ficava lembrando de como a gente tinha se conhecido e de como eu sabia deixar ela louca.
Me lembro como se fosse hoje. Tinha ido ao cinema assistir um filme asiático. Não sei exatamente qual era o dia, mas era dia de semana. Não tinha ninguém na sessão, só eu. Depois eu vi que ela vinha com um livro na mão e usava óculos de borda grossa. Adoro mulher que usa óculos de borda grossa. Estava com uma saia vermelha e aqueles sapatos franceses. Já se vestia como uma publicitária. Sentou perto de mim e deu um sorriso tímido, daqueles de canto de lábio. Não resisti e acabamos casando.
Lembrava do passado sentado no sofá, tomando o vinho chileno que tinha ganho do sogro, quando ouviu o barulho de chave na porta da frente. Correu para a cozinha, esperando ela entrar. Luiza vestia preto, dos pés a cabeça, e tinha uma aparência de acabada. O tempo e o trabalho vão mutilando as pessoas, mas ela continuava linda. Minha Luiza parecia personagem dos filmes noir da década de 40, tinha até sombra nos olhos.
Ela entrou e viu a mesa repleta de adornos e com os pratos que ele havia preparado. Sentou na cadeira e ficou parada, olhando para a vela laranja. Apagou o fogo com um sopro e depois tornou a acendê-lo, usando a chama de outra vela. Ela nem tinha me visto ainda, parecia cansada com alguma coisa. Resolvi chegar por trás e coloquei as duas mãos sobre os ombros dela. Era um bom massagista, sabia brincar com os dedos tão bem que ela soltou a bolsa e a pasta que carregava e se encolheu toda. Depois, tirou minhas mãos dos ombros e pediu para eu sentar na cadeira ao lado. Só depois que sentei eu vi que a maquiagem preta que usava no rosto estava toda borrada. A mancha negra que escorria por baixo dos olhos chegava até a altura da boca vermelha e seu corpo estava desfalecido na cadeira, parecia que estava morta. Fiquei comovido com aquilo e a abracei.
- Luiza, linda, a gente pode comer outro dia. Você não quer tomar banho e depois ficar deitada comigo?, perguntei.
Ela não respondeu nada, ficou só olhando para baixo, com a boca tremendo e uma lágrima escorrendo pelo olho esquerdo. Eu continuava abraçando-a, sem entender nada, quando ela resolveu falar a primeira coisa em mais de dez minutos.
- Eu não te amo mais, desculpa.
- Como?, perguntei, chocado. Parei de abraçá-la.
- Desculpa, Fábio. Eu simplesmente não consigo mais, não sinto mais aquilo por você.
- O que aconteceu? Alguma vez eu te tratei mal, te ofendi? Eu te amo Luiza.
- É que estou apaixonada.
Fábio levantou da cadeira e acendeu um cigarro. Suas mãos tremiam.
- Apaixonada por quem, porra?
- Prefiro não falar.
- Já que é para me foder, me fode direito. Por quem, porra?, tornou a perguntar, transtornado com a notícia.
- Pelo Márcio.
- Puta que pariu, Luiza. Pelo Márcio? Pelo meu melhor amigo?
- Ninguém comanda isso, Fábio. Desculpa, mas eu não consigo mais.
Luiza levantou-se e deu uma última olhada na mesa, disse ter adorado as velas laranjas e foi embora. Fábio estava no segundo cigarro. Sentou na cadeira, serviu-se e comeu o espetacular filé ao molho mostarda. Não colocou macarrão. Depois de comer, ficou sentado vendo as chamas consumirem as velas.
posted by FELIPE LEAL 11:52 AM
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
tcc e seus efeitos colaterais
- checar o e-mail a cada 15 minutos
- o computador é seu melhor amigo
- o google é seu melhor amigo
- coca cola também
- fazer backup de cada parágrafo novo, com medo de perder outro disco rígido
- conversar com as pessoas entrevistando-as, qualquer pessoa
- achar que todo mundo trabalha de madrugada
- achar que todo mundo serve como personagem
- trocar o dia pela noite e por isso acabar sentindo as mesmas coisas que meus personagens
- reescrever as reportagens cinco, seis, até oito vezes cada uma
- gastrite
- sonhar com lides e abres revolucionários
- sonhar que estão roubando toda a sua apuração
- sonhar que o terceiro parágrafo da matéria vinculada da reportagem dois precisa ser modificado
- perda de apetite por causa dos deadlines
- compulsão por pesquisa, apelando até para artigos em italiano que não entendo e que não servirão para nada
- ficar puto quando alguém diz que está achando "fácil" fazer o tcc
- obsessão por dados, estatísticas, números
- bloqueio
posted by FELIPE LEAL 2:20 PM
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cosas vindas do morador do Recife, a cidade das pontes, das praças, das igrejas centenárias, dos tubarões, das brs esburacadas, emergências superlotadas, do pôr-do-sol no capibaribe e dos 15 homicídios diários.
felipe.
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