Sexta-feira, Setembro 28, 2007
Jobim é um cara sábio
O que você não sabe nem sequer pretende
É que os desafinados também tem um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Ele é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito
Bate calado, que no peito dos desafinados
Também bate um coração
posted by FELIPE LEAL 12:10 AM
Quarta-feira, Setembro 26, 2007
¿Dónde estuviste?
Tio, vai uma caneta? Se tiver passe-fácil eu compro. Tendo passe-fácil eu compro! Tem passe-fácil aí, galego? Tropa de Elite! Tropa de Elite! Só dez reais a cópia, tá baratinho, o filme é sensação. A dona de casa já viu, o trabalhador já viu, eu mesmo já vi umas cinco vezes, só falta você, vai querer? Só dez reais a cópia. É produto de qualidade, meu patrão. Olhaí, pode olhar. Lacradinho, no plástico, igual na loja, mas com preço menor. É a favela chegando na cidade, é a favela chegando na cidade. Vai? Você tá vendo isso? Tá vendo isso que absurdo? Tão levando minha barraca, moço. Chegaram aqui do nada, com uma caminhonete da prefeitura, e tão levando a minha barraca. Eu sobrevivo dessa barraca, você não pode fazer nada? Dizem que tou fazendo venda pirata. Churros é produto pirata? Só tou vendendo churros, tenho meus clientes, os meninos aqui sempre compram comigo, eu sobrevivo de churros, rapaz. Não tem nada que você possa fazer? Vai lá e fala com eles, diz que eu crio quatro filhos pequenos com a barraca de churros. Você pode fazer isso? Pode? Meu jovem, veja bem, venda ilegal, é isso que está acontecendo aqui. O produto não tem o selo da Vigilância Sanitária, temos que apreender o produto. Você já comeu disso daí? É comeu morreu, rapaz, a gente tem que apreender. Pra ter de volta? Tem que pagar fiança, multa. É meio salgado, acho que essa senhora vai ficar sem os churros. Os filhos? Ah, garoto. Eu também tenho filhos, três sabe? Você acha que é fácil criar três filhos? Você tem quantos, por acaso? Mas tava na cara isso, olha só pra você. Eu não posso fazer nada por essa senhora, ela que se adeque às normas. Estamos tentando melhorar as coisas por aqui, se você não notou. Devolve a barraca dela, porra! A senhora não fez nada demais, é gente da melhor qualidade! Devolve a barraca dela, policial! É, devolve! Se for pra levar a dela, tem que levar de todo mundo aqui da rua. Vai querer levar de todo mundo aqui da rua? Não vai caber nesse carrinho de merda não, tem que trazer um caminhão. Essa prefeitura não faz porra nenhuma! Cadê a importância com o trabalhador? Não vai levar a barraca dela não. Me respeita porra! Me respeita! Só porque tá armado com cassetete acha que pode sair distribuindo pancada por aí? Filho da puta, filho da puta! Solta ele, vai, solta ele! Diz pra ele soltar meu marido, ele só tava tentando ajudar, não fez nada demais! Acelera essa porra aí, vai. Tem mais coisa pra fazer lá em São José, acelera meu filho! Vai ver mulher no bordel, a gente tá trabalhando, prestenção na direção, cacete. Ô Maurício, ô Maurício! Que idéia é essa de peitar os homem? Eles te levam, porra! Esqueceu que você é um pai de família, esqueceu disso? Não chora não, senhora. Não chora não que não vale a pena. A gente vai te ajudar, fica tranqüila, a gente vai pegar a sua barraca. Não, seus filhos não vão ficar sem comida na mesa, não vão nã... não chora! Onde é agora? Mudaram todas as linhas de ônibus da avenida. Água! Vai água meu nobre? Ô abençoado! Abençoado, aceita essa oração, é sem nenhum compromisso, mas lê com amor e fé em Deus. Deus é o maior de todos, irmão. Agradeça em nome Dele, sempre. O emprego tá assim assim, minha filha. Não sei direito, mas acho que o Rodrigues não tá nem aí pra mim. Se eu fui almoçar com ele? Fui sim, né. Mas uma coisa é ir almoçar, a outra é rolar alguma coisa. Não sei não, amiga. Ah, tá bom então, diz pro Tarcísio que eu vou chegar mais tarde hoje, tenho que ir resolver umas coisas no shopping antes, tá? Diz que ele mesmo esquenta a janta, pra não se preocupar.
Adoro andar no Centro.
posted by FELIPE LEAL 12:28 AM
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
Bom dia
Toda vez que eu assisto o noticiário do meio-dia eu penso: terceiro mundo vai explodir.
posted by FELIPE LEAL 12:18 PM
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Como é que a gente faz?
Doralice eu bem que te disse
Amar é tolice, é bobagem, ilusão
Eu prefiro viver tão sozinho
Ao som do lamento do meu violão
Doralice eu bem que te disse
Olha essa embrulhada em que vou me meter
Agora amor, Doralice meu bem
Como é que nós vamos fazer?
Um belo dia você me surgiu
Eu quis fugir mas você insistiu
Alguma coisa bem que andava me avisando
Até parece que eu estava adivinhando
Eu bem que não queria me casar contigo
Bem que não queria enfrentar esse perigo Doralice
Agora você tem que me dizer
Como é que nós vamos fazer?
posted by FELIPE LEAL 11:03 PM
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Embaçado
Quando o carro se aproximava do sinal da Avenida Ribeiro de Brito, um dos principais corredores de ligação da Zona Sul com a Zona Oeste do Recife, de cara o motorista viu que duas meninas - com seis, sete anos cada uma - vieram para cima. Cada uma com um limpa-vidros e uma água suja, espessa. Vestiam roupas rasgadas, igualmente sujas e tinham os cabelos em pé. Passaram pelo vidro da frente do carro, deram a volta e jogaram jatos de água no vidro de trás, sem se importar com o motorista. Vai ver aprenderam daquele jeito. Ele acelerou um pouco e elas pararam de molhar o veículo. O vidro, no entanto, ficou com uma enorme camada de gordura cinza, vinda da água dos canais recifenses. Abriu o vidro. "Limpem essa porra!", disse para uma das meninas. "Não fui eu não, tio. Foi ela", e apontou para a outra. "Manda ela limpar!", ordenou, levantando o vidro. "Manda ela limpar!". Ao lado, um motociclista olhava a cena, confuso. Do outro lado, um casal em um Celta igualmente assustado. As duas meninas, sem esboçar muita reação, se afastaram do condutor e ficaram esperando, na calçada, o sinal abrir. Para elas, provavelmente mais uma cena cotidiana nos segundos entre o vermelho e o verde. Nem esperou abrir, o motorista, de meia-idade, acelerou. O vidro traseiro do carro dele dava pena, ninguém soube como conseguia dirigir. Três quilômetros depois, parou em um posto de gasolina. "Olha, preciso que limpem esse vidro", disse ao frentista. "Você vai abastecer também?", perguntou. "Não, não vou". Pediram que fosse um pouco mais para frente, perto da bomba de água. "Já vão limpar para o senhor". Passados alguns minutos, quando a tênue paciência dele recomeçava a se esgotar, um menino franzino - com seis, sete anos de idade - vinha com um enorme regador, que mal conseguia carregar. Não disse nada ao motorista. Jogou água no vidro sujo, passou um limpa-vidros exatamente igual ao das duas meninas do sinal da Ribeiro de Brito, sabão, tornou a jogar água, dessa vez limpa. Ao terminar, perguntou se o homem queria que enchesse os pneus. "Não precisa, garoto. Olha, como é seu nome?". O menino respondeu desconfiado. "Henrique". Tinha sete anos, usava roupas rasgadas da cor vermelha e os dedos, que tanto mexiam com água, eram sujos como piche. "Toma", disse o condutor, estendendo-lhe 50 centavos. "Não precisa não, tio."
posted by FELIPE LEAL 12:28 PM
A tecnologia nossa de cada dia
Depois de perder 40 gigabytes de disco rígido absolutamente do nada, sem aviso, sem choro nem vela, eu penso que a tecnologia costuma conspirar contra mim. E a maresia também. Eu realmente não veria problemas em morar longe da praia. Haja memória fotográfica, discografias, temporadas de seriados, softwares, filmes, tudo pro limbo daquela caixinha retangular que só serve como decoração, de agora em diante. Fiz alguns backups, mas não conheço ninguém que os faça com certa freqüência. O meu desespero chegou a limites inimagináveis quando achei que tivesse perdido toda a minha apuração do projeto experimental, mas - e aí acho que Deus ou alguma coisa chamada prudência existe - havia salvo as mais de 20 páginas de word no e-mail, exatamente um dia antes do apocalipse tomar conta do HD. Cada vez mais tudo está virando bytes, fotos, vídeos, textos, poemas-escrevimasnãomandei etc. É problemático.
posted by FELIPE LEAL 12:17 PM
Domingo, Setembro 16, 2007
You can never replace anyone because everyone is made up of such beautiful specific details.
posted by FELIPE LEAL 3:58 AM
Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Domingo no parque
- Chove muito em Londres, o que você vai fazer lá?
- Vou passear.
- Otário.
Dois dias depois, chegou no Heathrow Airport. Tinha pego um vôo desconfortável, em uma areonave pequena, de uma companhia aérea de baixo custo. O avião era um teco-teco e balançava ao passar pelas nuvens. A todo o momento esperava que as máscaras de oxigênio caissem do teto da cabine, que ficaria despressurizada, como sempre dizem as aeromoças. Sempre quis saber como seria uma cabine despressurizada. As pessoas em volta eram extremamente desinteressantes. Sua vizinha de poltrona devia estar sem banho há alguns dias. Ao lado, um senhor de cinqüenta e muitos dormia tranqüilamente. Certamente ele teria problemas para colocar as máscaras de oxigênio, não teria tempo hábil para isso. Problema dele. Tentaram contornar a situação desconfortável com barrinhas de cereal inglesas, que em nada diferem das brasileiras. Uma libra cada barrinha. Preferiu ficar com fome. Não conseguiu dormir. Felizmente, a viagem era curta.
Ao chegar no aeroporto, os policiais dividiram os passageiros em duas filas, lado a lado. Ficou na fila número dois. Na frente, um africano e atrás um tcheco. Os dois também não tinham conseguido dormir na viagem, mas só ele havia sentido o cheiro da companheira de poltrona. Depois de organizada, a fila em que estava começou a caminhar lentamente, daquele jeito que só a humanidade conhece. Um por um, todos iam passando por máquinas de raio-x. Depois de quarenta minutos, foi a vez dele. Raio-x na cabeça, na barriga, na cueca, nos pés, nos ombros, dentro da boca. Por fim, chegou a uma mesinha onde estava um fardado. "Para onde você vai? O que veio fazer em Londres?". E assim por diante. Sou democrata-cristão, tenho família, meu pai é dono de usinas canavieiras e eu amo a rainha. Acertou todas, deixaram ele entrar.
- Onde?
- No parque, perto da London Eye.
Foi de metrô. Entrou na estação amarela, percorreu quatro estações, fez a troca de carro para a linha laranja, andou outras cinco paradas, trocou novamente para o trem vermelho. O calor ali dentro era desgraçado. Um negro tocava o A Love Supreme no saxofone, só que ninguém o ouvia. Todos ali dentro estavam com i-pods nos ouvidos. Tunts tunts tunts, batidas repetidas, drum'n'bass, rock'n'roll e outros bichos. Ficou incomodado com aquilo. A cada cinco minutos, o carro parava em uma estação. Centenas de pessoas tentavam entrar e centenas de pessoas tentavam sair, tudo ao mesmo tempo. Era um empurra-empurra perfeito para os ladrões e pervertidos. Sorte que Londres é civilizada, não tem ninguém aqui assim.
Chegou na vez dele. Saiu da estação e deu de cara com uma ponte gigantesca, azul e branca, enorme. Olhou para cima e lembrou de casa. Morava num prédio grande. Não sentiu saudades. Atravessou a ponte, que parecia interminável, olhando para aquele rio em forma de mar que engolia barquinhos que mais pareciam de papel e emanava uma luz mais forte e incandescente que a do sol. Usava um sapato gasto, daqueles que todo mundo tem. Um deles estava rasgado do lado esquerdo e o cadarço estava acabado, parecia mastigado. Em volta, todo mundo usava óculos escuros que refletiam a luz do sol, que batia no olho dele e o cegava. Andava com as mãos na testa, protegendo-se. Dois casacos nas mãos. Tinham dito a ele que Londres era fria, mas ele viu que era mentira. Dentro do rio, uma roda gigante parecida com a que tinha andado quando criança com o pai no parque da cidade onde morava.
Resolveu passar por debaixo dela. Lá em cima, fustigados pelo sol, pequenas pessoas que brincavam dentro das bolhas da enorme roda gigante. Até que chegou no parque. O gramado estava lindo, de um verde comestível, flamejante, convidativo. Procurou um pouquinho, deu uma volta com os olhos e a viu deitada, de óculos, com i-pod, olhando para cima, para o sol. Chegou devagar, pé-após-pé, e ficou cobrindo o céu, exatamente para onde ela estava olhando. Azul. Ela sorriu com o canto da boca. Mas só com o cantinho. Deu-lhe a mão e ele também deitou. Pessoas andavam de bicicleta e passeavam com cachorros a poucos metros dos dois. Tinha o cheiro bom.
Ficou cobrindo o sol com as mãos, tinha fotofobia. A grama espetava um pouquinho, mas se confundia com o verde da camisa que vestia. Ela passou um pacote de biscoitos para ele e colocou um dos fones do i-pod em seu ouvido. Tocava The Zombies. Sua faixa preferida da banda. Como ela sabia? "Como você sabia?", perguntou. "Eu não programei nada", disse. Enquanto os versos de Time Of The Season enchiam a sua cabeça, ganhava um cafuné de pontinhas dos dedos, que brincavam em sua cabeça.
Através dos espaços entre seus dedos que cobriam o sol, via a roda-gigante soberana no céu londrino. Um gosto doce.
posted by FELIPE LEAL 2:11 AM
Chegamos na porta do cinema e ela perguntou
Se eu queria mesmo ficar dentro do cinema
Três horas e quarenta minutos vendo um filme
sobre mafiosos.
Ela tivera um ou dois namorados que só fodiam
Quando não tinham outra coisa para fazer
Por que foder hoje de tarde se podiam foder de noite,
Por que foder de noite se podiam foder
amanhã de manhã,
E por que foder no dia seguinte se podiam foder
no sábado,
E por que foder no sábado se podiam foder
na outra semana,
No feriado ou no dia do aniversário dele ou dela?
Mas ela sabia que comigo - com nós dois,
Pois na verdade não era apenas eu que fazia
Tudo ficar diferente -
era outra coisa.
E caminhamos apressados debaixo do sol
Pois não queríamos perder tempo, tínhamos depois
De voltar para nossas prisões e aguardar
O novo encontro, e fomos
Para o primeiro lugar mais perto, um apartamento sem
Nenhum móvel, e ficamos agarrados lá dentro,
A maior parte do tempo eu em cima dela
Com os joelhos apoiados no chão, e meus joelhos
ficaram lacerados,
E o meu pau esfolado, e ela com a carne ardendo, e um
Dente meu da frente rachado e um dente dela da frente
Rachado, e marcas vermelhas
Apareceram ao lado de antigas manchas roxas e nossas
Olheiras se tornaram ainda mais escuras, mas não me
Queixei nem ela se queixou. Era um pacto de incêndio,
Contra esse espaço de rotina cinzenta entre
O nascimento e a morte que chamam
vida.
Um dia na vida de dois pactários, Rubem Fonseca, 1998
posted by FELIPE LEAL 1:17 AM
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
Frases
"Todo mundo fuma maconha no aeroporto", gari do aeroporto.
"Mauricinhos e prostitutas jogam garrafas uns nos outros aqui dentro. Toda madrugada", funcionário de um supermercado de Boa Viagem.
"Quem me garante que você também não vai jogar garrafa em alguém aqui dentro? Você tem cara de mauricinho", funcionário de um supermercado de Boa Viagem
"A mulher não tem que reclamar de mim, eu sou as unhas e o cabelo dela. Ah, sirvo pro sexo também", segurança particular.
"Sabe aquela dança dos famosos no gelo? Então. Sou tipo eles, só que mais pobre", garçonete que trabalha com patins.
"Nem tenho mais tempo para ver os acidentes e atropelamentos, antes era melhor", auxiliar de serviços gerais.
"Odeio gringo. Tudo filho da puta", taxista.
posted by FELIPE LEAL 3:59 AM
Doce?
Em uma estrada vicinal em Jardim Paulista, no Grande Recife, vê-se uma aglomeração inquieta de moradores das redondezas, a maioria de chinelos e alguns com chapéus de palha. O burburinho das vozes acabou mergulhado no barulho das sirenes das viaturas das Polícias Militar e Civil. Tinha chovido na noite anterior, o terreno que me levava aos populares estava mergulhado em uma lama espessa, suja e amarelada, passando por toda uma extensão de dois quilômetros que a chamada Mata do Ronca possuía.
Logo na entrada da estrada, uma Parati preta, no alto de seus 20 anos de idade, abandonada. As rodas levadas, a carcaça removida. Um esqueleto metálico. Nos dois lados, árvores invadindo a estrada de barro, o retrovisor trincando em galhos. Cerca de 500 metros à frente, o conhecido círculo que se forma em volta de um cadáver. Pequenas inclinações para frente, silêncio.
No chão, com o rosto estatelado e completamente imerso na sujeira, um homem com a cabeça estourada e o sangue misturado à lama e água suja. Vestindo vermelho, estava de olhos fechados. Tiros na cabeça e na nuca, execução sumária. Mais alguns passos à frente e as viaturas policiais piscando em vermelho. Em pé, dois delegados discutiam procedimentos administrativos. Apoiados nos galhos, homens armados e fardados. Polícia Militar de Pernambuco, pê-ême-pê-é, PMPE. Ao lado deles, um camburão do Instituto de Medicina Legal [IML], da cor branca, que só ele possuía. O resto era um mar de verde, amarelo, marrom e vermelho.
"Lá atrás tem outros dois, vai lá ver", disse uma senhora castigada pela idade. Chegando "lá atrás", outro corpo estirado na terra batida, marcado de vermelho puro, prestes a ser colocado no saco dos peritos médicos. Próximo a ele, um Fiat Uno completamente carbonizado, pneus derretidos, barras de ferro retorcidas. "Cadê o outro?", pergunto ao delegado. "Dentro". Me mostrou. No banco traseiro, um tronco, algo parecido com madeira. Era uma pessoa, ou pelo menos foi o que me disseram. Ali, uma massa disforme carbonizada, estranha. "Um crime de execução sumária", repetia um dos policiais.
O primeiro homem, de 33 anos, era um taxista, amigo das outras duas vítimas, mortas sem chance de defesa. Segundo o delegado, ambos eram ex-presidiários e agora cumpriam regime condicional em Paulista. "Ainda não sabemos as linhas de investigação, mas pelas circunstâncias, tudo indica que assassinaram o taxista por ele estar com os ex-presidiários, e um deles foi morto queimado dentro do veículo. Acredito que acenderam o step com gasolina e queimaram o veículo”, palpita o guarda. “Talvez eles tenham alguma ligação com algum crime praticado recentemente ou rixa, o que deve ter motivado a brutalidade dessas ações.”
Enquanto explicava o caso, os corpos foram parar dentro dos sacos do IML, pessoas em volta olhando sem muita reação, como quem está acostumado a tal tipo de crime. Os três viraram estatística para a corporação policial. Mais um crime não resolvido, mais um drama familiar, mais uma manhã monótona e dura. Doses cavalares de realidade.
"Me assustar, por que? Ninguém faz nada por aqui, onde eu moro. Não dou tanta atenção. Só fico bem porque não foi nenhum dos meus filhos ou conhecidos né", contou uma senhora. Uma outra, com medo de represálias, limitou-se a um murmurante "a vida continua, né?" O rosto estava coberto por rugas e um chapéu gasto pelo tempo. Corpos recolhidos, o carro do IML deu partida, enquanto começou a cair o resto da chuva do dia anterior. Enquanto seguia pela estrada vicinal, o veículo parecia fazer questão de espirrar lama nos populares.
Os pessoal que ali tinha se juntado começou a correr de volta para sabe-se lá de onde vieram. Com medo de um atoleiro, saímos dali até dar nas margens da BR-101. Tocava Molejo na rádio FM e um menino olhava para o fotógrafo que me acompanhava e pedia uma foto, sorrindo. Era um sorriso amarelado, mal cuidado, torto, inocente. Vestia uma camisa desbotada do Sport Clube do Recife e estava descalço.
Realidade amarga
Nos arredores do local dos assassinatos, uma pracinha onde outros meninos jogavam futebol – na chuva – e alguns taxistas conversavam em um ponto, ao lado do terminal de ônibus da localidade conhecida como Jardim Paulista Baixo. Depois de algumas perguntas e entrevistas, me indicam a casa de um senhor, ali perto, ao lado do bar com o irônico nome de “Sonho Doce”.
Era o pai de Vinicius, um dos rapazes mortos no crime. Na frente da casa, alguns carros de imprensa e populares rodeando o local, como que em frenesi. Os muros, que já foram brancos há uns cinco [cinco?], dez anos, agora eram cinza escuro. Na sala da casa, um senhor gordo, trajando camisa branca e óculos de grau no rosto. Olhava para baixo enquanto era bombardeado pelas perguntas dos repórteres. “Ele estava metido com drogas?”; “Quanto tempo ficou preso?!”; “Qual a relação dele com os outros dois?”.
Fitava o chão, a mulher do lado, também sem muita expressão. Nenhum dos dois chorava, apenas estavam ali, estáticos. Alguém perguntou como ele se sentia. Dançando no Hopi Hari certamente que não, mas fizeram a pergunta, de qualquer forma. “Você vai trazer meu filho de volta? Que te importa o que eu estou sentindo?”, respondeu, com repreensão no olhar. Não olhava para nenhum dos jornalistas ou para qualquer pessoa que estivesse naquela casa. Simplesmente ficava sentado no sofá, como que pensando.
Eis que então a casa esvaziou e ele ficou lá, paradinho. Do lado de fora, no bairro de Jardim Paulista, onde o sofrimento é interpretado sob a forma de um silêncio sepulcral, os garotos continuavam jogando futebol e alimentando o sonho colorido do Sport Clube. O Sonho Doce se resume ao bar.
Ainda que a violência estivesse ali escancarada, brutalizada nas ruas de lama daquele lugarejo, senhoras carregavam sacolas com tomates e repolhos. “Ô de casa!”, dizia o entregador de água, ao lado dos três fuzilados em uma mata vicinal.
posted by FELIPE LEAL 3:38 AM
Domingo, Setembro 09, 2007
Suzana estava grávida de um fibroma
Foi uma novela daquelas para escolher o nome do primeiro filho. “Eu quero ou Felipe Deividson da Silva ou Felipe Cristina da Silva”, dizia Suzana Cristina. Mas Felipe Cristina não pode, Suzana. Não é sobrenome... “Não me interessa. Fica muito mais bonito que só Felipe”. Depois descobrimos que o Deividson vinha da marca de motocicletas mais famosa do mundo, a Harley-Davidson. Em todo esse impasse, o menino acabou nascendo Felipe da Silva mesmo, vitória da resistência em massa das pessoas. Ele já veio ao mundo sem saber quem era o pai.
Suzana fazia a limpeza, cozinhava e costumava varrer a casa como ninguém, nunca deixava uma sujeirinha pelos cantos. É uma mulher grande, alta, gordinha, com voz acelerada, gestos acelerados e riso descontrolado. Quebrava xícaras com uma facilidade incrível. Quando Felipe nasceu, ela se acalmou mais, passou a dar assistência a seu filho. Era uma festa todas as vezes que o pequeno Deividson aparecia vestido com as cores do Santa Cruz. Boné, sapatinhos e roupas de Ricardo Rocha. “Ele já foi da seleção, era muito craque”, justificava a mãe.
Quatro anos depois, Suzana teve uma súbita crise durante a preparação de um almoço e colocou-se a vomitar. “Eu tou muito mal, sabe, mas acho que foi o tempero da comida ou alguma coisa estragada que eu comi ontem”. Uma ida ao banheiro e tudo voltava ao normal, afinal, Suzana era uma mulher forte. Era bastante forte mesmo.
Até que um dia o “forte” virou gorda. Que barriga enorme. Seria gravidez denovo? “Não tou grávida não, é um fibroma que me apareceu. Por isso minha barriga ta inchada desse jeito”, dizia Suzana. Ela estava grávida de um fibroma, um tumor benigno que se desenvolve a partir do crescimento anormal das fibras musculares que constituem a parede do útero.
O filho de Suzana era o próprio útero dela. E assim os dias foram passando e o fibroma aumentava mais e mais. As pessoas andavam muito desconfiadas, mas Suzana sabia desmentir como ninguém. “Já fui no médico, dotôra. Eles me avaliaram toda. O fibroma ta crescendo, mas não corro risco de morrer não”. A mãe dela, dona Helena, confirmava a versão de que seria vovó de fibras musculares. “Se ela tivesse grávida eu já teria notado. Eu tenho olho clínico, notei com duas semanas quando ela engravidou de meu netinho. Ninguém me engana não”.
Enganou. Depois de oito meses de gestação do fibroma, um dia Suzana sumiu, não foi trabalhar. “Parece que ela foi fazer a operação do fibroma, que o médico tinha aconselhado”. Dona Helena tampouco sabia do caso. Meudeusdocéu, cadê minha filha. Eis que uma cruzada por todos os hospitais da cidade se iniciou. Onde diabos estaria Suzana. “Essa cirurgia é demorada mesmo, o fibroma é uma coisa complicada”, contou uma amiga dela.
Algumas horas depois Suzana ligou. “Estou aqui no Albert Sabin, acabaram de operar meu fibroma e eu estou bem. Em um dia ou dois eu chego em casa”. Ah, que bom que foi tudo bem. A mãe respirava aliviada por ter encontrado a filha. Alguém então notou que o Albert Sabin era uma maternidade.
Dona Helena chegou esbaforida à maternidade. Em um leito, Suzana estava branca como a neve e com soro no braço. “Meu deus, minha filha. Você não ta com fibroma nada, você tava me enganando!”. Indignou-se. Ao pé da cama, negligenciado pela mãe, estava Fibroma Cristina da Silva. Ou Fibroma Deividson da Silva, uma menininha enrolada em um cobertor.
Ao invés de estar nos braços da mãe, a criança estava no pé da cama. Suzana não esboçava maior reação. Ela simplesmente não queria aquele tecido muscular com ela. O bebezinho, para ela, era um fibroma. Segundo a enfermeira, nem ao ter contato com a menina Suzana esboçou uma reação mais emocional.
“Ela queria dar a menina logo depois que pariu. Ela chegou aqui desesperada e quando a menina nasceu ela disse que eu podia entregar para qualquer pessoa que eu encontrasse”, revelou a enfermeira. Dona Helena continuava indignada. Ela xingava a filha no meio do hospital. “Você não é mais minha filha! Desnaturada! Como você faz isso com minha neta, hein?! Você não pode dar sua filha!”. A maternidade, atônita, observava aquilo.
Ao ver que Suzana continuava imóvel na cama, sem a menor demonstração de sentimento para com o bebê, Dona Helena resolveu levar a menina para casa. Ela não tinha nem roupas, afinal, fibromas não usam roupas, meias rosas ou fraldas. Algumas doações de outros pacientes da maternidade resolveram o problema num primeiro momento.
Ao sair da maternidade, Suzana voltou a trabalhar. Disse que a filha estava com a irmã, Rosineide. Ela seria a mãe da menina, agora com nome, Júlia. Sem Deividson e sem Cristina. Dona Helena, feliz com a netinha, nunca mais voltou a falar com a filha. Suzana, que também não chegou a conhecer o pai da menina, ainda continua tratando Júlia como se não fosse dela. “Eu não estava grávida. Estava com um fibroma. Essa menina é filha da minha irmã, ela achou no hospital”.
Três anos depois do ocorrido, Suzana continua trabalhando na casa da minha tia. Firme e forte, como sempre.
posted by FELIPE LEAL 8:43 PM
Agonia em vermelho
Em meio a fábricas, fumaça e cinzas, Antonioni inicia, em ritmo quase estático, o que viria a ser a sua mais nova antologia poética. O cineasta que melhor sabe exprimir o poder e o valor dos sentimentos humanos através da película (e também da ausência de trilha sonora) abusa de um ritmo lento, quase parando, exatamente como o coração de sua protagonista, Giulianna, interpretada brilhantemente por uma Monica Vitti confusa, tensa, volúvel e inquieta. A musa do diretor novamente volta a cena, mantendo certos trejeitos soturnos e misteriosos do que já foi explorado na chamada Trilogia da Incomunicabilidade, com A Noite, O Eclipse e A Aventura. Em O Deserto Vermelho, a tristeza da personagem é algo tão forte quanto elíptico. Ela sente uma dor incomensurável em não ser compreendida e em permanecer em uma realidade à parte, ausente.
O Deserto Vermelho mostra um verdadeiro balé silencioso, onde os sentimentos nunca são extravasados e a personalidade da protagonista nunca ultrapassa uma faceta comedida e assustada. Como em Persona, do mestre sueco Bergman, Monica Vitti se torna uma Anita Ekberg, presa às suas próprias frustrações, sintetizadas em forma de incompreensão e abstração. Os sentimentos de Giulianna são cíclicos, como os barcos que pairam no rio poluído às margens da fábrica italiana. É como eles que a personagem encara as voltas que a realidade dá cada vez que desperta de suas crises de pânico e pavor. De solidão e escuro. Cada vez que se dá conta do real, entra em uma realidade cada vez mais fragmentada, pós-moderna. Até o insuportável. No filme, os sentimentos são ainda mais rarefeitos que o fog que se dissipa no céu, são tão rasantes que incomodam.
posted by FELIPE LEAL 8:16 PM
Terça-feira, Setembro 04, 2007
A secretária que quer ser diretora de fotografia
Ela passa o dia atendendo clientes no consultório, marcando consultas, ligando para confirmar as datas. Também manipula pinças e peças babadas por quem está na cadeira do dentista. Basicamente esta é a rotina de Lucineide, por volta dos seus trinta-e-poucos, com algumas rugas no rosto e um ar que mistura melancolia e simpatia. Fica em uma ante-sala cheia de revistas em quadrinhos e papel de parede de bichinhos. Ela faz questão de dizer que odeia o Recife todas as vezes que encontro-a no consultório. "Aqui é muito sujo, a cidade fede muito. Meu sonho mesmo é ir pro Rio onde as oportunidades acontecem", mas no Rio não é perigoso, minado e sufocante? "Não, não. Lá é maravilhoso".
Lucineide nunca foi ao Rio de Janeiro. Só conhece o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar pelos cartões postais que compra e pelas matérias que lê no jornal. Ainda assim é fascinada pela cidade, fala com um brilho nos olhos. Ela não assiste televisão. Ou melhor, até assiste, mas se resume a TV Cultura, seu xodó. Passa noites e madrugadas vidrada naquilo que o canal veicula. “Meu programa preferido é o jornal da cultura. É o único deles que é imparcial. Também sou fã dos filmes brasileiros que passam lá”.
Ela fala de cinema com carinho. Sorri com o canto da boca todas as vezes que as sílabas “ci-ne-ma” saem, tímidas. E ela menciona isso enquanto uma broca fura minha arcada dentária sem muita piedade. Lucineide fala sem parar, ela precisa compulsivamente se comunicar. Como sua vida limitada não permite, ela se resume a conversar com os pacientes da dentista. Puxa todo e qualquer assunto, os entulha de informação. “Ela fala demais, não pára nunca”, reclama um paciente, quando saio da sala.
“Sabe o que eu amo? Eu amo Cantando na Chuva. Adoro aquela cena onde os três ficam dançando juntos”. Ela ainda solta observações sobre outros vários filmes sem ao menos eu ter provocado. Depois revelou que quer ser diretora de fotografia. Perguntada se costuma fotografar, ela diz que nunca teve uma máquina. “Mas eu penso como uma câmera de cinema. Eu olho tudo num ângulo de cinema, eu já nasci com essa característica”.
Entre seus planos para o futuro, estão USP,UFF ou Faap. “Quero sair daqui o mais cedo possível. Eu gosto do Rio, mas São Paulo iria me receber muito bem também. Com certeza é lindo por lá, gigante. Eu adoro aquela cidade”, diz, assumindo depois que também nunca foi à capital paulista. Enquanto esse dia não chega, Lucineide continua recebendo os pacientes de sua chefe na cobertura do oitavo andar. Em volta dela, as histórias em quadrinhos, as brocas barulhentas e o sonho de Cantando na Chuva
posted by FELIPE LEAL 4:20 PM
Domingo, Setembro 02, 2007
Sábado, 22h, Linha Aeroporto
Duas senhoras, uma mais senhora do que a outra, esperavam pacientemente a condução. Sentadinhas nos bancos mal cuidados da parada 01, no bairro do Pina, Zona Sul, conversavam sobre a agradável noite recifense. Choveu fininho momentos antes e o asfalto ainda estava úmido. Ao lado da parada, as obras inacabadas para o túnel da Via Mangue e uma prostituta conversando com um segurança da Camilo Brito, empresa responsável pela obra.
- Sabe, minha filha, estou tão feliz...
- Pelo emprego do Tião?
- É. Fiquei tão contente, fazia tempo que ele tava procurando alguma coisa, só vivia triste.
- Graças a Deus né? Quando ele começa?
- Não sei não, minha filha, mas acho que nessa semana agora.
Ao diálogo, um silêncio confortável e as buzinas dos carros que cortavam a ponte Paulo Guerra. Ao longe, o coletivo anunciava a vinda com os faróis piscando em luz alta. A senhora mais velha, baixinha, fez o sinal. A outra só observou. Subiram e o ônibus entrou em movimento. Entraram bem na hora que tornou a chover, tiveram sorte. Dois homens que estavam sentados nas poltronas reservadas para idosos cederam os lugares às mulheres. O solavanco da passagem das marchas atrapalhava que sentassem, mas parecia que já estavam acostumadas com aquilo.
De lado, o cobrador, um negro sorridente, observava as duas e contava notas de R$ 1 e R$ 2 amassadas. Algumas coladas com durex. Depois da contagem, as amarrava com um elástico gasto. Durante o procedimento, um homem com uma enorme tatuagem de caveira no braço esquerdo lhe entregou uma garrafa de 1 litro de coca-cola.
- Pro senhor. Fica com Deus, tá?
Ele pareceu não entender direito.
- Pra mim?
O homem sorriu.
- É. Leva pra tuas crianças. Deus tá contigo, irmão.
O cobrador agradeceu sem jeito.
posted by FELIPE LEAL 8:50 PM
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cosas vindas do morador do Recife, a cidade das pontes, das praças, das igrejas centenárias, dos tubarões, das brs esburacadas, emergências superlotadas, do pôr-do-sol no capibaribe e dos 15 homicídios diários.
felipe.
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