soundscape

Sábado, Agosto 25, 2007

Derby, 17h30.
- Vai ficar aqui mesmo?
- Pode ser.
- Não quer ir pra outro lugar menos movimentado não?
- Por mim tanto faz.
- Então vamos pra beira do rio.
- Tá.
Na beira do rio Capibaribe, 18h.
(...)
- Sabe...
- O que?
- Assim, não sei, mas acho que as coisas estão erradas.
- Que coisas?
- Você não tá percebendo?
- Não.
- Mas tá tão na cara...
- Não notei nada de errado.
- Nem dentro?
- Dentro daonde?
- De você.
- Dentro de mim?
- É.
- Não sei, acho que não. Você notou?
- Notei.
- O que?
- Você não percebe mais as coisas.
- Mas o que, especificamente?
- Tudo. Olha o rio.
- Tou olhando.
- Então?
- Então o que?
- Não percebeu nada?
- Sujeira.
- Só?
- Só.
- Pena.
posted by FELIPE LEAL 5:16 PM

Domingo, Agosto 19, 2007

Martin Scorsese sobre Antonioni
do New York Times

Mil novecentos e sessenta e um... Muito tempo atrás. Quase 50 anos. Mas a sensação de assistir “A Aventura” pela primeira vez ainda continua comigo, como se tivesse sido ontem.

Onde foi que eu assisti? Foi no Art Theater ou no Eighth Street? Ou foi no Beekman? Não me lembro, mas lembro da descarga elétrica que correu através de mim na primeira vez que ouvi o tema musical de abertura – ameaçador, em staccato, com o som das cordas, tão simples, tão duro, como o som que anuncia o próximo “tercio” de uma tourada. E então, o filme.

Um cruzeiro pelo Mediterrâneo, com o sol brilhando, em imagens em branco e preto em widescreen como eu nunca tinha visto – com uma composição tão precisa, acentuando e expressando... o quê? Um tipo de desconforto muito estranho. Os personagens eram ricos, bonitos de certa forma mas, pode-se dizer, espiritualmente feios. Quem eram eles para mim? Quem eu era para eles?

Eles chegavam em uma ilha. Separavam-se, espalhavam-se, tomavam sol, brigavam. E então, de repente, a mulher interpretada por Lea Massari, que parecia ser a heroína, desaparecia. Da vida de suas colegas personagens, e do próprio filme. Outro grande diretor fez quase que a mesma coisa naquela época, em um filme bem diferente. Mas enquanto Hitchcock nos mostra o que aconteceu com Janet Leigh em “Psicose”, Michelangelo Antonioni nunca explicou o que aconteceu com a Anna de Massari. Teria ela se afogado? Caído nas pedras? Fugido de seus amigos e começado uma nova vida? Nós nunca descobrimos.

História de detetive?

Em vez disso a atenção do filme se transferia para a amiga de Anna, Claudia, interpretada por Monica Vitti, e para seu namorado Sandro, interpretado por Gabriele Ferzetti. Eles começavam a procurar por Anna, e então o filme parecia se tornar um tipo de história de detetive. Mas logo em seguida nossa atenção era desviada da mecânica da busca, pela câmera e pela forma como ela se movia. Era impossível saber para onde ela iria, quem ou o que ela iria seguir. Da mesma forma, a atenção dos personagens se dispersava: na direção da luz, do calor, da noção do espaço. E então na direção um do outro.

Então o filme se tornou uma história de amor. Mas isso também se dissolveu. Antonioni nos fez conscientes de algo estranho e desconfortável, algo que nunca havia sido visto nos filmes. Seus personagens flutuavam pela vida, de impulso em impulso, e tudo era eventualmente revelado como um pretexto: a busca era um pretexto para ficarem juntos, e ficarem juntos era outro tipo de pretexto, algo que moldava suas vidas e os dava algum sentido.

Quanto mais eu assistia a “A Aventura” – e voltei várias vezes ao cinema – mais percebia que a linguagem visual de Antonioni nos deixava focados no ritmo do mundo: os ritmos visuais de luz e sombra, das formas arquitetônicas, das pessoas posicionadas como silhuetas em uma paisagem que sempre parecia terrivelmente vasta. E havia também o ritmo do filme, que parecia estar em sincronia com o próprio ritmo do tempo, movendo-se lentamente, inexoravelmente, permitindo que as falhas emocionais dos personagens, o que fui perceber mais tarde – a frustração de Sandro, a auto-depreciação de Claudia – silenciosamente os condenassem e os empurrassem para uma nova “aventura”, e para outra e mais outra. Exatamente como o tema de abertura, que chegava ao clímax e se dissipava, chegava ao clímax e se dissipava. Infinitamente.

A dor de estar vivo

Enquanto a maioria dos filmes que eu já tinha visto terminava para cima, “A Aventura” terminava para baixo. Faltava às personagens ou a força de vontade ou a capacidade para a verdadeira consciência de si mesmos. Eles tinham apenas algo que se passava por consciência, disfarçando os caprichos e a letargia que eram tanto infantis quanto extremamente reais. E na cena final, tão desoladora, tão eloqüente, uma das passagens mais inesquecíveis de todo o cinema, Antonioni expressou algo extraordinário: a dor de estar simplesmente vivo. E o mistério.

“A Aventura” me proporcionou um dos choques mais profundos que já experimentei no cinema, ainda maior do que com “Acossado” ou “Hiroshima Meu Amor” (feitos por dois outros mestres modernos, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, ambos ainda vivos e trabalhando). Ou com “La Dolce Vita”. Na época havia dois grupos, o das pessoas que gostavam do filme de Fellini e das que gostavam de “A Aventura”.

Eu sabia que estava firme do lado da linha de Antonioni, mas se me perguntassem naquela época, não tenho certeza se saberia explicar por quê. Eu adorava os filmes de Fellini e admirava “La Dolce Vita”, mas era desafiado por “A Aventura”. O filme de Fellini me tocava e entretia, mas o filme de Antonioni mudou minha percepção do cinema, e o mundo ao meu redor, e fez com que ambos parecessem sem limites. (Dois anos depois voltei a assistir Fellini, e tive o mesmo tipo de epifania com “Oito e Meio”).

As pessoas que Antonioni retratava, bem semelhantes às personagens dos livros de F. Scott Fitzgerald (de quem mais tarde descobri que Antonioni gostava muito), eram tão estranhas à minha própria vida quanto poderiam ser. Mas no fim isso parecia sem importância. Eu estava hipnotizado por “A Aventura” e pelos filmes subseqüentes de Antonioni, e era o fato de que eles não se resolviam em nenhum sentido convencional que continuava a me fazer assistí-los.

Eles apresentavam mistérios – ou melhor, o mistério de quem somos, o que somos, uns em relação aos outros, a nós mesmos, em relação ao tempo. Pode-se dizer que Antonioni estava olhando diretamente para os mistérios da alma. É por isso que eu continuava voltando ao cinema. Eu queria continuar experimentando esses filmes, divagando através deles. Ainda quero.

Antonioni parecia abrir novas possibilidades a cada filme. Os últimos sete minutos de “O Eclipse”, o terceiro filme de uma trilogia informal que começou com “A Aventura” (o segundo filme é “A Noite”), era ainda mais assustador e eloqüente do que os momentos finais do primeiro filme. Alain Delon e Monica Vitti marcam um encontro, e nenhum dos dois aparece. Começamos a ver coisas, as linhas da faixa de pedestre, um pedaço de madeira flutuando em um barril – e começamos a perceber que estamos vendo os lugares em que eles estiveram, vazios de sua presença. Gradualmente Antonioni nos traz face a face com o tempo e o espaço, nada mais, nada menos. E eles olham diretamente para nós. Era assustador, e libertador. As possibilidades do cinema eram, de súbito, ilimitadas.

As maravilhas de Antonioni

Todos nós testemunhamos maravilhas nos filmes de Antonioni – tanto nos filmes que vieram depois, como nos trabalhos extraordinários que ele fez antes de “A Aventura”, em filmes como “A Dama Sem Camélias”, “As Amigas”, “O Grito” e “Crimes da Alma”, que descobri mais tarde. Tantas maravilhas – as paisagens pintadas (literamente pintadas, muito antes dos efeitos especiais) de “Deserto Vermelho” e “Depois Daquele Beijo”, e a história de detetive fotográfica deste último, que ao final levava cada vez mais para longe da verdade; o final capaz de expandir a mente de “Zabriskie Point”, tão xingado quando estreou, em que a heroína imagina uma explosão que faz com que os detritos do mundo Ocidental escorram pela tela em super slow motion e em cores vívidas (para mim Antonioni e Godard eram, entre outras coisas, verdadeiros grandes pintores modernos); e a notável cena final de “Profissão: Repórter”, em que a câmera se move lentamente para fora da janela e para dentro de um jardim, para fora do drama do personagem de Jack Nicholson e para dentro do grande drama do vento, do calor, da luz, do mundo se revelando no tempo.

Antonioni e eu cruzamos nossos caminhos algumas vezes ao longo dos anos. Certa vez passamos o Dia de Ação de Graças juntos, depois de um período muito difícil em minha vida, e fiz o meu melhor para dizer a ele o quanto significava para mim tê-lo conosco. Mais tarde, depois que ele teve um derrame e perdeu a fala, tentei ajudá-lo a levar adiante seu projeto “The Crew” – um roteiro maravilhoso escrito com seu freqüente colaborador Mark Peploe, como todas as outras coisas que ele já havia feito, e sinto muito que nunca tenha sido realizado.

Mas são suas imagens que eu conheço, muito mais do que o homem propriamente dito. Imagens que continuam a me perseguir, a me inspirar. A expandir meu senso do que é estar vivo no mundo.

Tradução: Eloise De Vylder
posted by FELIPE LEAL 9:11 PM

etc
posted by FELIPE LEAL 9:08 PM

cosas vindas do morador do Recife, a cidade das pontes, das praças, das igrejas centenárias, dos tubarões, das brs esburacadas, emergências superlotadas, do pôr-do-sol no capibaribe e dos 15 homicídios diários. felipe.

Past
current